Semestralidade: nossos alunos são cobaias
Nos últimos anos tem sido aplicado nas escolas de Ensino Médio acreanas um tipo de execução disciplinar muito inusitado: o ensino semestral. É uma prática educacional pela qual se divide o ano letivo em dois semestres distintos, nos quais se trabalham disciplinas diferentes, isto é, as matérias oferecidas no primeiro semestre não se repetem no segundo. Até aí nenhuma novidade. O que surpreende é como esse projeto tem sido aplicado e desenvolvido nas escolas. Idealizado pelo professor Ildo César Montezuma, gerente de ensino médio (Secretaria Estadual de Educação), o projeto, ainda em caráter experimental, é implementado como algo pronto e definido. Todas as escolas tiveram de adotá-lo e aplicá-lo de maneira absoluta, sem questionamentos. Sabendo que a educação desenvolve-se a partir da relação entre escola e a sociedade, ficam as seguintes perguntas: Que tipo de discussão se desenvolveu sobre o tema e, se houve com quem se discutiu? Que avaliações a respeito de riscos foram feitas? O que os alunos, “principais interessados”, pensam sobre isso? O que parece é que a idéia até pode ter sido discutida, mas não teve o alcance necessário a fim de atingir um resultado satisfatório para uma educação de qualidade com a qual tanto se sonha em nosso Estado.
Um exemplo prático da execução do experimento: no primeiro semestre, um aluno tem aula de Física. É avaliado processualmente e recebe duas notas ao final do processo, N1 e N2. No segundo semestre, a referida disciplina não é mais oferecida, sendo substituída por outras. A partir desse momento, a disciplina de Física não será mais lembrada nem sequer em exercícios de revisão. Se no final do processo, esse aluno for aprovado, pode ter ainda o azar de ter essa mesma matéria oferecida apenas no segundo semestre do ano seguinte. Assim, ele ficará um ano sem contato nenhum com a disciplina, causando um prejuízo significativo, visto que não será obedecida uma seqüência temporal. Não é segredo (caia aqui toda retórica hipócrita pró-educação de qualidade) que o quesito cronológico e o respeito a uma seqüência lógica de assuntos pesa muito no bom desempenho escolar.
O ensino semestral, assim como é aplicado, é um risco para os nossos alunos: é uma quebra no processo de ensino – aprendizagem que acarreta conseqüências desastrosas e até irreversíveis na vida escolar dos que atualmente estão sendo submetidos à ele. Até agora, nenhuma entidade, nem mesmo o Sindicato dos trabalhadores em Educação se manifestou sobre o tema.
Não há aqui, um desejo retrógrado de atuação escolar: é preciso evoluir. Mas essa evolução precisa ter como foco principal o aprendizado e a certeza de que nossos alunos terão com a educação que receberam perspectivas de um futuro promissor e sadio.